Eu odeio Ele – O Fumaça escondia mais coisas de mim, e pelo visto outras pessoas além do Toddy queriam me matar

Fumaça confessa para Priscila que além do Toddy outras pessoas perseguem ele. Mas qual será o real motivo?

Capítulo 8

“E tudo o que pedirem em oração, se crerem, vocês receberão”. (Mateus 21:22)

Deitei na cama e enquanto o Fumaça preparava seu lugar no chão, senti que me observava.

– Eu sei que fui bem idiota hoje, mas dá pra você esquecer isso? – O pedido me pegou desprevenida.

– Você foi um animal. – Disse, contrariada.

– Garota, para com essa marra. – Seu olhar triste dançava por todo o meu rosto, e por um instante desejei que parassem nos meus olhos. Me peguei querendo dizer que estava tudo bem, mas o devaneio logo passou e me concentrei no que ele tinha feito.

Pedir desculpas parecia ser pior do que ter atirado no amigo, a julgar pela dor que enchia sua expressão.

– Desde quando desculpas é suficiente? – O orgulho falou mais alto, e o bom senso também. – Você me tratou igual a um cachorro! Me forçou a entrar dentro de casa e ainda deixou meu braço todo machucado.

Aquela altura eu já estava de pé, de frente pra ele, esfregando as manchas vermelhas no seu rosto.

– Eu só fiz isso porque você queria ir embora! – Rebateu, porém sua voz não era tão firme.

– Fumaça, eu não sou sua prisioneira! Eu fugi com você porque quis, a hora que eu quiser posso ir embora!

– Eu já disse que vai ser mais arriscado! Deixa de ser teimosa! – Seu tom estava me dando calafrios. Mesmo em poucas horas de convivência eu sabia que o normal quando eu gritava era ele gritar também.

A estranheza me deixou mais nervosa.

– Arriscado pra mim ou pra você? Eu não passo de uma peça na sua vingança… – A intenção era continuar gritando, só que as palavras saíram hesitantes.

– Priscila, a merda é pior do que você imagina… – Sentou na cama e começou o discurso. Por um segundo meu coração pareceu saltar do peito, desde quando aquele homem invadiu nosso quarto, algo me dizia que tinha mais coisas do que o Fumaça tava me contando, mas minha cabeça estava tão cheia que ignorei. – Tanto eu quanto o Toddy trabalhamos pra um cara chamado Miguel, e agora que eu fugi, ele está atrás de mim.

– O maluco do hotel veio a mando dele?? – Eu exigia uma explicação. Tinha o direito de saber quem mais queria me matar.

– Sim… – Ia falar mais coisas, mas se calou. Ele não me encarava e isso aumentava minha irritação e meu nervosismo.

– Quer dizer que sem eu ter dado motivos tem mais um cara querendo me matar?

 – Ele não quer matar você, – Estranhei a ênfase em matar você.– Ele quer me matar.

– Ah, porque agora você acha que ele vai ficar com pena de mim e entender que não tenha nada a ver com suas merdas.

– Priscila, o Miguel não manda matar garotas, ele prefere elas vivas. – Explicou, como se aquilo resolvesse tudo.

– Quem é esse Miguel, Fumaça? Ele nem me conhece, como vai me querer viva??

Fui pra cima dele e com toda a força que consegui juntar lhe enchi de murros. Não revidou. Sabia que estava errado e me devia explicações.

– Fica calma, Priscila!

– Você tem que me contar! Quem é esse Miguel?

A força dos meus braços só foi suficiente para empurrá-lo na cama. E isso me fez chorar.

– Priscila, por favor, não chora… – Senti ele me confortar com seus braços, mas eu não queria conforto. Queria ir embora. E foi que fiz, pelo menos tentei.

Continua…

Eu odeio Ele – Tive muito medo de nunca mais sair daquela casa

Fuama leva Priscila para um local que não parece muito seguro. E para piorar tem um homem lá que não tira os olhos dela.

Capítulo 7

“Estejam alertas e fiquem vigiando porque o inimigo de vocês, o diabo, anda por aí como um leão que ruge, procurando alguém para devorar.” (1 Pedro 5:8)

O Fumaça não estava brincando quando disse que o amigo era assustador. Sem falar nada, ele me despertou mais medo do que o cara que nos seguiu.

Seu olhar era escuro como a noite, e os braços fortes mostravam o sentimento de superioridade. Tinha o rosto grosseiro e uma cicatriz enorme marcando sua bochecha.

Ele usava roupas estilo marinheiro. Camisa branca e um macacão preto. Mais do que um frio na barriga ou vontade de chorar, aquele homem causou um tremor em casa célula do meu corpo, seguido de uma negritude no meu coração. Foi uma sensação de morte.

– Como você foi fazer essa besteira, Fumaça? – Assim como a aparência, sua voz transmitia dor.

– Você sabe como Toddy é difícil, teve uma hora que eu não engoli mais ele. – Foi impressão minha ou percebi um leve vacilo nessa desculpa? – Por quantos dias podemos ficar na sua casa, Dan?

– Pelo tempo que precisarem. – E então, naquele momento ele me olhou pelo retrovisor, e a sentimento de morte de segundos atrás, voltou. – Mesmo com aquele vidrinho pequeno, conseguiu fazer uma avaliação de cima a baixo do meu corpo, parando mais demoradamente nos meus seios. O Fumaça percebeu e, estranhamente, se aproximou mais de mim. Não me afastei.

– Como está sua mãe? – Dan ignorou a pergunta do Fumaça, que mais uma vez insistiu, mas não conseguiu tirar a atenção do amigo do meu corpo.

Sabe quando acontece algo na sua vida em que você não quer aceitar, mas de repente sua ficha cai? Foi isso que aconteceu comigo naquele instante, dentro de um carro com um homem sugava minha alma com os olhos e com outro que decidia de acordo com o seu humor se me protegia ou não, foi que percebi onde estava e o porquê.  

Como em apenas uma noite consegui mudar totalmente o plano que tinha para minha vida? Eu só queria me divertir, não era justo o que tinha acontecido. Senti uma revolta, não contra mim, mas contra Deus e um sentimento de raiva encheu meu coração.

Por que Ele havia permitido aquilo tudo? Só porque eu queria viver minha vida longe de Suas regras? Foi nos Seus ensinamentos que aprendi sobre o livre e arbítrio, então por qual motivo estava tentava me punir? Minha cabeça girava e o biscoito ficou embrulhado no estômago. Nada mais fazia sentido. Por alguns segundos achei que estava em um pesadelo e que a qualquer momento minha mãe ia me acordar.

Porém não foi minha mãe que me acordou.

– Priscila, acorda. Chegamos. – O Fumaça sacudiu meu braço sem cerimônia.

Desci do carro e o contato com a luz do sol fez meus olhos arderem. Só depois de alguns segundos consegui avaliar onde estávamos.

O lugar era distante de tudo, ficava na beira de uma estrada e nem animal passava ali. Eu estava com duas pessoas completamente estranhas.

Uma eu conheci há alguns dias – em circunstâncias nada agradáveis, devo acrescentar –, não sabia se podia confiar. Já o outro, me olhava como se eu fosse um objeto de natal que fica na estante apenas para enfeitar por alguns dias, depois vai parar em uma caixa no porão.

Travei há dois passos da escada, que antecedia a porta de entrada.  

– Não vou entrar. – O Dan, que já estava com metade do corpo dentro da sala, me presenteou com um olhar tão gélido que senti frio até nos meus ossos.

– Fumaça, acho que a princesa está com medo de mim. Fala pra ela que eu só mordo quando pedem. – Zombou.

– Por favor, não consigo. – Segurei na mão vazia do Fumaça e o puxei levemente para trás.

– Vai indo, Daniel.

– Se precisar de ajuda, é só me chamar.

O Fumaça ignorou o comentário e me arrastou de volta para o carro. Achei que ele ia me deixar voltar. Como você pode ver, aqui eu ainda continuava inocente.

– Ele é a nossa saída para escaparmos do Toddy. – A explicação anulou a ordem que meu cérebro tinha acabado de dá às minhas mãos. Nem cheguei a encostar na maçaneta do carro. 

– Eu tô com medo. – Não era minha intenção a voz sair tão chorosa.

– Pior vai ficar se não tivermos proteção, Priscila.

– E como esse cara pode nos proteger? – A pergunta foi desnecessária. Era só olhar pra aquele rosto que eu tinha a resposta. – Ele nos protege do Toddy, e quem me protege dele?

Por conta do sol, não consegui encarar ele por muito tempo. Mas a aflição nas minhas palavras deixava claro que eu precisava e exigia uma resposta.

– O Daniel não vai fazer nada com você. – Falar isso encarando o chão revelava que nem mesmo ele acreditava naquela promessa.

Sem consegui mais me controlar, comecei a chorar. E ao invés do consolo que eu precisava, recebi indiferença.

– Que merda! Tudo você chora! Aceita logo que sua vidinha perfeita acabou e começa a colaborar para nos manter vivos.

Assim como ele, eu também podia gritar à vontade.

– Em uma noite eu estou no meu quarto achando que o meu maior problema é ter que enfrentar a aula de física no dia seguinte, só que do nada descubro que não vou precisar ir à escola, porque um assassino me convence a fugir com ele!

– Vamos rever os fatos. – Falou, cautelosamente, olhando no fundo dos meus olhos. Com ousadia, sustentei o olhar. – Você fugiu comigo e entramos em um quarto de hotel juntos, então acho que já confia em mim mais do que imagina, até porque se eu quisesse fazer alguma coisa com você já teria feito. E agora você vai entrar comigo à força.

Não tive tempo para protestar ou mesmo tentar correr. Sua reação me deixou tão surpresa e assustada que anulou qualquer coisa que eu pudesse fazer.

O Fumaça segurou meu braço, apertou tão forte que na hora ficou roxo, e foi me empurrando casa a dentro. O gesto foi tão brusco que ele parecia estar lhe dando com um cachorro.

O ódio tomou conta de mim. Meu corpo inteiro ardeu em chamas e estremeci. No momento em que ele me jogou na sala de casa, tombei, mas não pestanejei quando lhe chutei bem no meio das pernas.

Ele não esperava o golpe, e não pude ignorar a sensação de prazer quando seus olhos quase saltam da órbita.

Antes que ele pudesse raciocinar novamente e formular algumas palavras, uma senhora simpática apareceu.

– Olá, crianças! – Era impossível ela não ter visto o que tinha acabado de acontecer, mas por algum motivo fingiu que não. Sua voz agradável encheu o ambiente e ela era tão baixinha que parecia ter sido feita do tamanho ideal pra casa. Foi naquele momento que eu consegui observar tudo.

A sala não era muito grande, e disputava espaço com a cozinha. Os móveis estavam todos próximos, e mesmo assim, o lugar era organizado.

– Está tudo bem, Fumaça? – Fiquei com dúvida sobre as intenções da sua pergunta. Não consegui decidi se ela estava tentando avaliar se eu era o perigo, ou se já sabia quem era o Fumaça e, além de entender o que eu tinha feito, estava querendo mostrar quem mandava ali.

– Hum rum… – Ele murmurou se jogando no sofá e colocando uma almofada sobre suas pernas.

– Meu nome é Dóris, pode ficar à vontade, querida. – Senti, pelo jeito aconchegante como se dirigiu a mim, que ela estava do meu lado.

– Obrigada, prometo não incomodar. – Lembrei de todas aulas que minha mãe me deu, sobre como se comportar na casa dos outros.

– A casa é simples e pequena, mas tem um quarto só pra vocês.

Pior do que tudo o que estava acontecendo era alguém pensar que éramos namorados.

– Não queremos incomodar.

– Não se preocupe, querida, será um prazer. Podem ficar pelo tempo que precisarem. – Era difícil identificar se aquela educação toda era real.

Ao contrário do filho, aquela senhora pareceu ser um amor de pessoa. Ela era simpática, tranquila e agradável, mas diante da situação, eu tinha que desconfiar até de uma borboleta.

Estávamos os quatro na mesa, cada qual colocando sua quantidade de sopa, quando pela primeira vez, desde que entrei em sua casa, o Dan resolveu falar.

– Tá gostando da casa da minha mãe, Priscila? – Dava pra vê que ele queria agradar ela, mas nem assim, conseguia parecer com uma pessoa normal.

Fingi que não ouvi, e dona Dóris interviu.

– Um lugar tão apertado, você deve tá estranhando.

– É uma casa muito agradável. A senhora cuida muito bem de tudo. – Elogiei com sinceridade e recebi um sorriso generoso.

– De onde você é?

– Sou de São Paulo, nasci e cresci lá. – Era muito fácil conversar com ela. Por alguns momentos eu consegui esquecer os dois abutres na mesa.

– Já fui lá uma vez, assim que casei. Meu marido me deu a viagem como presente de um ano de casados. – Disse nostálgica.

– Ex-marido, mãe! Quando você vai aceitar que ele não está mais com você?

A forma como o Dan falou com dona Dóris foi tão fria e dura que despertou o Fumaça do transe que estava – não tinha dado mais de duas colheradas na comida e olhava fixamente pra colher – e trocar alguns olhares comigo.

– Eu sei, filho, foi só um deslize…

Minha vontade era defendê-la e dizer que não precisava abaixar a voz e a cabeça pro filho, mas se ele gritava com a própria mãe, o que poderia fazer comigo?

– Você sempre dá esses “deslizes”. – Colocou a palavra assim, entre aspas, pra deixar claro que a desculpa dela não colava mais. – Cuidado pra um dia não ser fatal.

O Dan se levantou da mesa, deixando o clima tão pesado quanto um elefante.

– Meu filho não gosta de ouvir nada sobre o pai… – Começou a explicação, quando pro meu alívio o Fumaça interrompeu.

– Não precisa falar nada pra Priscila, Dóris. – Então ele já conhecia a história, fiz um lembrete mental para depois pedi que me contasse.

– Ele foi embora quando o Dan ainda era muito pequeno. – Continuou me encarando, era como se precisasse justificar a grosseria e a falta de respeito do filho. Mas o Fumaça estava certo, eu não queria saber, não por ela. Era uma situação muito desconfortável.

– Por isso a revolta. – Conclui pra dá um fim na conversa.

– O meu filho sempre foi assim, mas depois que se sentiu abandonado pelo pai ficou pior. Nem todo o amor que eu dei supriu a falta.

Ela se levantou, e mesmo sem termos acabado a sopa, tratamos de fazer o mesmo.

– Dóris, vou pro quarto estou morto de cansado, valeu pelo jantar.

– De nada, querido.

– Eu ajudo a senhora com a louça. – Me ofereci mais por educação, a última coisa que eu queria era ficar só com ela depois daquela cena, e pra minha sorte ela recusou:

– Não precisa, minha filha, vá descansar também. – Nem passou por minha cabeça insistir.

Continua…

Eu odeio Ele – Os pais de Priscila têm um segredo sobre o passado da garota

Algo de errado aconteceu no passado de Priscila. O que será que os pais dela estão escondendo?

Capítulo 6

– A Clara acabou de me contar o que aconteceu, Antônio, como vocês estão?

– Preocupados. Não fazemos ideia de onde ela se meteu, nem o porquê fez isso. – O pai de Priscila estava desconsolado, ele não fazia ideia do que tinha motivado a atitude da filha.

– O que dizia no bilhete?

Antes mesmo do amigo entregar o pedaço de papel, Wilson já tinha tomado da mão dele.

Pai, estou indo embora. Conheci uma pessoa há um tempo e estou apaixonada. Sei que o senhor e a mamãe nunca aceitariam esse namoro, por isso vou passar um tempo fora de casa.

Não se preocupem, estou bem.

Mando notícias.

Beijos, Pri.

Wilson encarava as letras sem saber o que dizer ao amigo. Ele podia imaginar a dor que estava sentindo, afinal de contas, Priscila cresceu junto com a Clara, eram praticamente irmãs.

– Vocês já ligaram pra todos os amigos dela?

Antônio assentiu, e disse:

– Ainda não. A Clara está ajudando a Sônia com isso, mas não tenho muitas esperanças, algo me diz que minha filha está longe.

Wilson não podia confirmar isso ao amigo, mas tinha a mesma sensação.

– Pelo menos sabemos que o pior não aconteceu, já que ela não está em nenhum hospital.

– Estou indo à rodoviária, você me acompanha?

Sem responder, Wilson o seguiu e por trás de Antônio criou coragem para fazer a pergunta que tanto queria:

– Você não acha que ela descobriu alguma coisa sobre…

– Não, não. – Antônio interrompeu sabendo do que o amigo de anos estava falando. – Chegamos a pensar nessa possibilidade, mas ninguém sabe disso. A Sônia escondeu todas os documentos daquele tempo, então essa hipótese está fora de questão.

– Então só nos resta torcer para que ela fique bem e volte logo.

– É o que eu estou pedindo a Deus.

Continua…

Eu odeio Ele – Eu não podia contar com ninguém. Na primeira oportunidade o Fumaça me deixou para trás

Priscila e Fumaça fogem juntos, mas a garota descobre que as intenções dele não eram tão bondosas quanto pareceram.

Capítulo 5

Porém seu pai e sua mãe lhe disseram: Não há, porventura, mulher entre as filhas de teus irmãos, nem entre todo o meu povo, para que tu vás tomar mulher dos filisteus, {…} E disse Sansão a seu pai: Toma-me esta, porque ela agrada aos meus olhos. (Juízes 14:3)

Se você me perguntar se eu já quis ser atriz a resposta será um sonoro não. O máximo que eu já fiz em uma peça foi ser uma árvore em apresentação boba da escola.

Hoje, continuo sem um pingo de vocação pra encenar. E isso ficou ainda pior quando me deparei vivendo na minha vida um verdadeiro roteiro de novela.

E para ser ainda mais vergonhoso, aqueles roteiros água com açúcar em que a mocinha foge com o amor da sua vida. Tudo bem que eu não conhecia direito o garoto que estava pilotando a moto a 200 km\h, mas era assim que eu me sentia. Uma mocinha, só que ao contrário da novela, eu estava fugindo com o vilão.

Enquanto o vento tocava meu rosto e fazia meu cabelo voar por entre o capacete comecei a pensar sobre o momento exato que perdi o controle de tudo. Eu só queria curtir e viver minha vida, por qual motivo fui parar na garupa de uma moto segurando a cintura de um cara que só estava me ajudando pra se vingar do amigo?

De repente um pensamento me ocorreu. Eu não sou ateia, e mesmo fazendo escolhas contrárias aos ensinamentos que cresci ouvindo, eu continuava acreditando em Deus.

E se o problema estivesse Nele? E se no dia em que ignorei Seus princípios tenha causado uma revolta no campo celestial ao ponto da ira Dele se voltar contra mim?

Era um pensamento absurdo, mas eu estava completamente perdida, e não fazia ideia de como encarar àquela situação. Não era uma explicação lógica, mas foi a única que consegui formular. 

Meus pais sempre me disseram que Deus é bom, mas e se Ele, assim como o Fumaça, fosse vingativo? Na Bíblia existem várias histórias de tensão entre o Senhor e “seu povo”, conflitos que nunca entendi.

Se Ele é tão misericordioso porque permitia que as pessoas sofressem sempre que O rejeitavam? Chegar àquela conclusão me deu medo. Se eu estivesse certa, então devia me preparar, porque eu não estava fugindo apenas com o vilão, eu tinha me tornado exposta as artimanhas de Deus.

– Você precisa dormir, a viagem vai ser cansativa. – O Fumaça advertiu, uma hora mais tarde, quando já estávamos em um hotel de beira estrada. Eu não tinha prestado atenção nas placas, mas pelo o que ele falou a alguns quilômetros estava a cidade de Tatuapé.

– Não consigo. – Respondi tristonha, não só por toda a situação, mas porque o sol já estava prestes a nascer e eu odeio quando isso acontece e eu estou acordada. A sensação de melancolia é horrível.

– Ficar pensando nos seus pais só vai piorar tudo. Precisamos nos concentrar em nos manter vivos. – Ele falou como se meus pais não fossem mais tão importantes quanto eram quando estava tentando me convencer.

 – Você tem ideia do quanto eles vão enlouquecer quando chegarem do trabalho e perceberem que eu não voltei da escola, e nem liguei o dia inteiro!

– O bilhete vai acalmar eles. – O desdém em sua voz me deixou ainda mais irritada.

– Eu não sou esse tipo de garota! Eles não vão acreditar!

– Fala baixo! – Pela primeira vez ele olhou pra mim, desde que saímos do meu quarto. Eu estava em cima da única cama de solteiro, e ele no chão, mas mesmo a posição superior não impediu que um arrepio percorresse meu corpo diante do seu olhar frio e de sua voz grossa.

Eu não queria que ele percebesse a reação que tinha causado, então respondi, com a voz mais firme que consegui:

– Seria bom você falar comigo direito, nenhum de nós dois queremos que eu desista dessa ideia maluca e peça socorro pra primeira pessoa que encontrar. – Como eu disse antes, nunca fui uma boa atriz. Essa ameaça não saiu no tom que eu queria, mas mesmo assim, ele fingiu acreditar e se deitou novamente.

Alguns minutos depois eu chorava silenciosamente imaginando o desespero dos meus pais, quando ouvi a mesma voz agradável do inicio da noite:

– Vou dá um jeito de você ligar pra eles.

Eu não respondi. Sabia que não podia confiar nas promessas de um desconhecido que não se importava de verdade comigo ou com minha família.

Eram quase 6 horas da manhã quando um barulho nos fez despertar no susto.

– O que foi isso, Fumaça?

– Precisamos sair daqui! – Ele já foi logo pegando nossas poucas coisas, e eu o imitei.  

– Mas por onde? – Olhamos em volta do quarto e não vimos uma solução, mas o outro chute na porta, nos fez enxergar a janela.

– Vamos pular!

– De jeito nenhum! – O quarto ficava no primeiro andar, mas mesmo assim eu sabia que me espatifaria. 

– Você vai morrer sozinha! – Como podia pensar na possibilidade de me deixar?

Seu braço em frações de segundos se desvencilhou da minha mão.

– Abre essa porta agora, garoto!

Mesmo tendo escutado poucas vezes, eu jamais esqueceria a voz do Toddy, e com toda certeza não era aquela.

– Quem está na porta, Fumaça?

– Não quero descobrir! – Quando disse isso, não se passaram nem dois segundos e ele pulou.

Eu não conseguia acreditar que ele tinha me deixado, de repente o medo foi substituído por uma raiva impetuosa e que quis, por alguns segundos, que o cara da porta o pegasse.

Mas isso passou, assim que o quarto foi invadido e eu ainda estava no dilema de pular ou não.

– Vem logo, garota. – O Fumaça gritou, já com o motor da moto ligado.

– Se você pular vai ser pior, princesa. – A voz soou ameaçadora atrás de mim, e eu não esperei pra descobrir se falava a verdade ou não.

Não tive tempo de avaliar a forma como encontrei o chão, ignorei a dor e o sangue que emanavam do meu joelho, e corri pra moto.

O cara ficou gritando os xingamentos mais horríveis, mas não demorou muito até repetir a nossa ação.

A moto logo estava a todo vapor, e corríamos como se estivéssemos em uma disputa, e deixar os outros competidores passar um milésimo da gente, fosse custar a nossa vida. O que não era de todo uma mentira.

Eu não olhei pra trás uma vez sequer, mas podia sentir que ele estava nos seguindo. A paisagem, as placas, os outros carros, tudo passou despercebido. Se o Fumaça batesse, eu só perceberia depois de já está no chão, talvez morta.

Alcançamos uma parte da estrada que estava em obras, então tinha alguns veículos provocando engarrafamento. Isso estava no topo das 10 coisas que mais me irritam na vida, e é um dos motivos para eu não almejar, como tantas pessoas, tirar a carteira de habilitação. Mas naquele momento agradeci.

Por conta da moto, conseguimos passar entre eles, mas o cara teve que parar e pude imaginar seu ódio.

– Vamos ter que abastecer. – O Fumaça anunciou, depois que percorremos uns 5 quilômetros.

– É mesmo necessário? – Eu temia que parar significasse nossa morte.

– Estamos ficando sem gasolina, se ignorarmos o próximo posto, corremos riscos maiores.

Chegamos a um posto Ipiranga, e a fila estava grande. Devia ser o único nas redondezas. Enquanto esperávamos, comecei a digerir o que tinha acontecido.

– Essa foi por pouco. – Minha voz ainda estava ofegante, e meu coração a mil. – Quem era aquele cara, Fumaça?

– Com certeza o Toddy descobriu onde estávamos e mandou ele atrás da gente. Sua  voz não estava muito diferente da minha.

– Assim, tão rápido?

– Ele não trabalha sozinho, Priscila. – Ao falar isso seu rosto ficou sombrio, e me perguntei se realmente estava falando do amigo. O olhar profundo voltado pro chão me fez pensar se tinha uma terceira pessoa envolvida, alguém que eu devesse temer mais do que ao Toddy.  

– Temos que sair daqui o mais rápido possível, ele não vai dá esse vacilo de novo.

Eu ia responder alguma coisa, mas de repente não consegui. Lágrimas corriam pelo meu rosto, e os soluços pareciam arrancar minha garganta.

– Para com isso, garota, todo mundo tá olhando pra gente. Vão pensar que te bati. – Sua voz voltou a ficar dura, e sua mão apertando minha coxa deixou claro que era uma ordem. O que só me fez chorar. – Priscila, pelo amor de Deus, você quer nos entregar?

Antes que outro aperto na minha coxa aumentasse as lágrimas, eu o abracei por trás. O gesto o endureceu e o deixou sem palavras. Não era minha intenção, eu só não queria que as pessoas pensassem que ele tinha me agredido, ou algo do tipo. Eu não podia piorar tudo.

A fila andou e eu continuei grudada nele. Enquanto o frentista abastecia, tentava fazer algum contato visual comigo para saber se devia me socorrer.

– Ela torceu o joelho. – O Fumaça tentava explicar, mas sua falta de coragem pra encarar o funcionário e todas as outras pessoas no posto, entregava a mentira. – Fica calma, Pri, vamos parar no próximo hospital. – Na tentativa de amenizar a cena, ele desceu da moto e me virou de lado.

– Eu … E.. eu – Murmurei e cai em seu pescoço, foi minha vez de ficar surpresa. Ele me abraçou.

– Vai ficar tudo bem, garota. – Apesar do tom de voz distante e seco, seus braços eram aconchegantes e seguros. Eu estava apavorada. Não fazia nem dez horas que eu tinha fugido e mais pareciam anos.

Um buraco se instalou no meu peito, e aquela sensação era nova e assustadora. Eu não sabia como reagir. Pensar em meus pais só aumentava o vazio, e imaginar aquele cara nos encontrando de novo fazia minha mente ficar turva.

Eu estava assustada, e não tinha ninguém para me acalmar. Eu não confiava no Fumaça, e por mais que seus braços tentassem passar segurança, a distância que ele mantinha do meu corpo dizia outra coisa.

Ele não estava do meu lado. Na primeira oportunidade que teve me deixou pra trás sem pensar duas vezes.

– Bebe, Pri, vai te deixar melhor. – Passei cinco segundos pra entender que um copo de água com açúcar estava sendo me oferecido. Quis recusar, mas a cara de preocupação do frentista me forçou a tomar.

Seguimos viagem até chegarmos à entrada de Monte Alto e um Siena preto parado na estrada me chamou atenção.

– Fumaça…

– É meu amigo, vamos ficar escondidos por uns dois dias na casa dele. Ele é assustador, mas não precisa ter medo.

– Bela forma de caracterizar alguém. – Debochei, em uma tentativa fracassada de parecer despreocupada.

– Você quer comer alguma coisa? – A pergunta me pegou desprevenida. Parecia que tinha se passada décadas desde que eu tinha colocado alguma coisa na boca.

– Hum rum. – Tinha acabado de perceber que estava morrendo de fome.

Jogou o biscoito em cima de mim, era daquele tipo água e sal. Em casa eu só como com algum recheio, mas naquele momento percebi que tinha sorte de ao menos ter o biscoito.

Continua…

Eu odeio Ele – Um estranho pulou para dentro do meu quarto (pela janela) e me convenceu a fugir com ele

Fumaça aparece no quarto de Priscila e revela que o Toddy não morreu, está bem vivo querendo matá-la.

Capítulo 4

“Poucos dias depois, o filho mais moço ajuntou tudo o que era seu e partiu para um país que ficava muito longe.” (Lucas 15:13)

Três semanas se passaram e eu reagia de forma mais sensata ao ocorrido. É claro que eu não conseguia esquecer por um dia sequer aquela noite. Demorava horas para dormir revivendo as cenas desde o banheiro até a partida, e quando enfim pegava no sono acordava no meio de um pesadelo em que o Toddy estava atrás de nós. No final do sonho eu sempre parava nos braços do Fumaça, que de um jeito sombrio sussurrava meu nome.

Na escola, eu não conseguia prestar atenção nas aulas, e por isso, tive que aumentar o meu tempo de estudo à tarde pra não ser prejudicada no final do ano. Meus pais devem ter percebido algo diferente, eu já não conversava tanto como antes e passava mais tempo no meu quarto do nunca. Imagino que eles associaram essas mudanças à minha recente decisão de renegar a opinião deles na minha vida.

Enquanto eu tentava fingir que estava tudo bem, a Clara tinha crises repentinas de choro e estava faltando mais aula do que o normal.

Marta, sua mãe, sempre que me via perguntava se eu sabia de alguém que poderia ter feito alguma coisa contra a ‘Clarinha’. Eu desconversava, mas já estava ficando sem desculpas. A TPM não podia mais ser a culpada.

– Clara, você precisa parar com essa paranoia! – Alertei quando estávamos voltando da escola e ela tinha rejeitado o terceiro convite de uma festa no mês. Aquilo também estava me prejudicando. Eu não queria deixar de curtir por conta do medo, mas não podia fazer isso com minha amiga sendo tão antissocial.  

– Eu não sou você, Priscila. Estou traumatizada, não paro de pensar que aquele cara pode aparecer a qualquer momento e nos matar.

– Ele deve ter morrido. – Eu repetia isso várias vezes ao dia de frente para o espelho.

– Mas ainda tem o tal do Fumaça. Ele me pareceu bem descontrolado. Nós somos testemunhas do que ele fez, pode querer nos apagar!

Eu não tinha pensado naquilo. Fiquei tão perturbada com a possibilidade do Toddy não ter morrido e resolver terminar o que começou, que acabei fechando os olhos para os outros riscos.

– Ele sabia meu nome. – Pensei alto.

– Isso é o menos importante. Eu realmente devo ter te chamado.

– Eu lembraria.

– Impossível, amiga. – A Clara tentou me acalmar pela primeira vez naquelas três semanas. – Ficamos muito nervosas, não tem como lembrarmos de tudo.

Eu não disse mais nada. Sabia que minha mente podia está me enganando e eu não ter guardado muitos detalhes, mas algo me dizia que eu estava certa em me preocupar. 

Uma noite após essa conversar, eu estava desligando o computador, depois de passar 2 horas assistindo Flash na tentativa de sentir sono e conseguir dormir direito, quando uma pessoa cai da janela dentro do meu quarto.

Minha luz ainda estava acessa, e por isso o susto não foi maior. Era ele. O garoto não sabia só quem eu era, mas também onde eu morava.

Minha primeira reação foi gritar e correr pra porta, mas antes que eu conseguisse destrancar, o Fumaça chegou perto de mim e prendeu minha mão que estava na fechadura.

– Me larga ou vou chamar meus pais!

– Para com isso, garota, eu não vou fazer nada com você. – Sua voz estava baixa e tranquila, e a proximidade me obrigou a olhar em seus olhos. Pela primeira vez eu o vi de verdade.

Ele tinha o olhar profundo e triste, que me despertou pena. Eu sou daquelas que acreditam no famoso clichê de “os olhos são as janelas da alma”, e por esse motivo sempre tento decifrar as pessoas através dessas pequenas bolas. No caso do Fumaça, não eram tão pequenas assim.

Seus olhos, do tamanho de uma moeda de 25 centavos, pareciam assustados – com o tempo descobri que eram assim por natureza – o que combinava perfeitamente com o desenho do seu nariz e suas bochechas nem gorduchas nem magrelas.

– Eu preciso que você me ouça com calma. Eu só quero conversar. – Em contrapartida, sua voz era calma e insanamente agradável.

Fiquei tentada a gritar, mas como eu explicaria aos meus pais onde conheci aquele garoto? Eles nunca acreditariam que eu não tinha dado o endereço da minha janela pra ele. Resolvi ao menos ouvir o que ele tinha pra dizer, na pior das hipóteses eu o empurrava pela janela.

Sim, naquela ocasião não passou por minha cabeça que ele podia está armado, e aí eu que seria empurrada janela a baixo.

– Como você sabe onde eu moro? – Juntando todas as poucas técnicas de encenação que eu sabia, tentei fingir calma e tranquilidade. Puxei minha mão da sua, e sem muito esforço consegui soltar. Sai de perto dele e fui andando em direção a minha cama, ele me acompanhou.

– Um estranho está dentro do seu quarto e antes de querer saber o porquê você pergunta como ele descobriu sua casa?

– Fala o que você quer, garoto. – Prometi a mim mesma que iria dá um minuto pra ele se explicar, se não assim não fizesse, eu ia pedir socorro.

Vendo minha impaciência, começou.

– O Toddy não morreu. – Aquela notícia balançou minhas estruturas e tive vontade de chorar. No fundo eu alimentava a esperança de que ele tinha batido as botas, e o fato disso não ter acontecido me impediu de segurar todo o medo que eu estava sentindo. – Fica calma, eu não to aqui porque ele mandou.

– Você veio me matar! Sai daqui, vou chamar a polícia! Saiiiiiiii!!

– Presta atenção, Priscila: Eu vim aqui pra te ajudar! – Seus braços não estavam dando conta de me segurar. – Se não fugirmos ele vai nos matar!

– Seu idiota, filho de uma mãe, me solta!! – Minha ânsia de sair dali impedia de ouvir as palavras dele com atenção.

Vendo que de nada ia adiantar pedir pra eu me acalmar, brutalmente me jogou na cama. Aquilo tirou minha atenção do medo, mas também despertou minha fúria. Quem ele pensava que era para me tratar daquele jeito? Eu o tinha visto atirar em alguém, podia muito bem entregá-lo pra polícia.

Antes que eu começasse uma tempestade de acusações, tratou de falar.

– O Toddy não está nada feliz em saber que eu atirei nele pra defender duas patricinhas que ele queria mortas. Você sabe muito bem que se meteu no nosso caminho naquela noite, então ou você faz o que eu disser ou fica sozinha e paga pra ver.

Sua voz passara de agradável para ameaçadora. Eu não conseguia me mexer, não conseguia acreditar no que ele estava dizendo e só pensava que na verdade era ele quem queria me matar.

– Você não está acreditando em mim, não é? Olha essa mensagem e veja se o que estou dizendo é mentira.

Pegou o celular no bolso, e sem desviar a atenção de mim, deu um play em um áudio no celular.

“Seu moleque desgraçado, você vai pagar o que fez. Isso não vai sair barato! Eu vou achar você e aquelas vadias.”

Quando eu pensei que tinha acabado, outra bomba:

“Fomos muito bem pagos pra acabar com aquele garoto, quando ele descobrir que não fizemos isso vai atrás de mim, de você e delas. Torça pra que eu te encontre antes disso.”

– Como você pretende se safar? – Perguntei, ainda em estado de choque.

– Eu não faço a mínima ideia. A única coisa que pode dá certo é fugirmos.

– A gente? Eu não te conheço, não vou fugir com você! Posso chamar a polícia e contar tudo o que aconteceu. – Eu não queria que isso soasse como uma ameaça, por algum motivo ele estava me ajudando desde aquela noite louca, então independente das suas intenções eu sentia como se tivesse em dívida com ele.

– Priscila, a polícia não pode te ajudar. Nenhum policial vai ficar 24 horas com você. Sem falar na sua família. Ou você está esquecendo que seus pais também correm perigo? O Toddy não é burro, ele não vai aparecer quando todos estiverem esperando. Uma hora vocês vão vacilar e achar que está tudo bem, e vai ser nesse momento que irão se deparar com as consequências da sua escolha. E a família da Clara também corre riscos.

Ele pareceu juntar todas as suas forças para falar aquilo. Não parava nem sequer pra respirar, estava totalmente focado em me convencer. Objetivo que conseguiu no momento em que falou dos meus pais.  

– O que eu tenho que fazer? – Já me sentia derrotada.

– Fugimos pra casa de um amigo meu e depois despistamos o Toddy, e ai esperamos até ter certeza que é seguro voltar.

– E quando vai ser seguro? – Me questionei se um dia seria. Aquele pensamento me deu tontura e falta de ar. Olhei em volta do meu quarto e não consegui segurar o choro. Como fui me meter naquela situação? Eu estava com um garoto completamente estranho dentro do meu quarto e acabara de ouvir a notícia que mudou toda minha vida.

Amaldiçoei a noite em que o vi pela primeira vez. Amaldiçoei minha ida àquela festa. Amaldiçoei minha curiosidade, e por fim, desejei voltar no tempo e perguntar aos meus pais se eu podia ir àquela maldita boate.

 Enquanto tentava recuperar o controle da situação mais ar me faltava. Meus pais já estavam dormindo, quis chamá-los, gritar, pedir ajuda, dizer o que tinha acontecido, talvez as coisas pudessem se resolver…

Uma outra coisa também acendia uma luz vermelha na minha cabeça.

– Por quê?

– O quê?

– Por que você quer me ajudar? O que você ganha com isso?

Ele se afastou e começou a andar em círculos pelo meu quarto.

– Responde! – Insisti.

– Priscila, eu já fiz muita coisa errada na vida, – nesse momento ele parou em frente ao espelho, ao lado do meu criado mudo, e ficou encarando o próprio reflexo – e a maioria delas foi por conta do Toddy. Eu não atirei nele pra salvar duas estranhas, eu atirei nele pra vingar, e continuo fazendo isso quando não deixo que ele nos alcance.

Agora sim estava tudo explicado.

Continua…

Eu odeio Ele – Um estranho sabia meu nome. Não, ele conhecia toda a minha vida

Priscila ouve o disparo do tiro. Ver um corpo no chão e respira aliviada quando percebe que não é o seu.

Capítulo 3

“Não se alegre quando o seu inimigo cair, nem exulte o seu coração quando ele tropeçar.” (Provérbios 24:17)

A primeira coisa que pensei foi na dor. Ele tinha atirado e em algum momento meu cérebro paralisado ia descobrir em qual parte do meu corpo tinha sido atingida.

Alguns segundos depois percebi que eu não era a vítima ali.

O Toddy estava estirado completamente apagado e com a barriga toda ensanguentada. Seu amigo permanência no meu mesmo lugar de antes e na mesma posição, a única novidade era a arma em sua mão.

Com o olhar fixo na direção do selvagem, ele parecia em choque. Admito que aquela cena me deu um certo prazer. Senti que o garoto do banheiro estava sendo vingado.  

 – Será que ele está morto?

– Não sei, mas temos que sair daqui.

Eu sabia que aquela era a chance que precisávamos pra correr, mas por algum motivo me senti em dívida com o Fumaça, afinal de contas, ele atirou no amigo para proteger duas desconhecidas. 

– Não, calma, precisamos falar com o garoto.

– Você está louca? Ele vai nos matar! – Não me deixei abalar pelo pânico na voz da Clara.

Confesso que não era só agradecimento. Eu senti um pouco de pena dele. Por causa do seu olhar mortificado, a sensação era de que o Fumaça tinha atirado no próprio pai.

Ignorei os apelos de fuga da minha amiga e segui em sua direção.

– Você está bem? – Realmente não sei o que deu em mim.

– Saiam daqui! – Minha aproximação o fez despertar do transe.

– Não precisa falar assim! Só vim agradecer. – Rebati, e hoje me perguntou se eu estava querendo morrer naquela noite. Enfrentei um garoto que não conhecia e que tinha acabado de usar a arma em sua mão.

 – Por mim, já estávamos em casa há muito tempo. – A Clara se meteu e me puxou pelo braço.

– Sua amiga está certa, Priscila, vão logo!

A menção do meu nome não me passou despercebido.

– Como você sabe meu nome? – Perguntei perturbada. Eu tinha acabado de conhecer eles. Era a primeira vez que ia à uma festa. Nunca na vida ouvi o nome Fumaça ou Toddy. Então o que explicava o fato daquele estranho saber quem eu era.

Minha desconfiança aumentou quando ele rapidamente se moveu em direção ao corpo do amigo.

– Eu ouvi sua amiga te chamar. – Respondeu, se abaixando e tocando os braços do Toddy.

Era mentira. A Clara não tinha falada meu nome auto o suficiente para que ele ouvisse.

– Priscila, vamos logo! – Minha amiga estava aos prantos. Vê ela daquele jeito me fez entender que eu não tinha tempo pra descobrir quem era aquele menino na minha frente ou o outro estirado no chão.

E foi assim, com a curiosidade e o pânico borbulhando em minhas veias, que eu deixei pra trás um jovem caído sem nenhum sinal daquela pessoa monstruosa que era, e um garoto assustado que tinha acabado de usar uma arma no sujeito que devia ser o mais próximo de amigo que ele tinha.

Continua…

Eu odeio Ele – Assisti uma tentativa de homicídio, e depois precisei lutar por minha própria vida

Em uma festa, Priscila presencia uma briga e quando vai tentar pedir ajuda, descobre que sua vida está em risco.

Capítulo 2

“Pois quem põe os seus próprios interesses em primeiro lugar nunca terá a vida verdadeira…” (Marcos 8:35)

Era minha primeira vez em uma boate e ninguém precisou me ensinar como dançar ou agir. A música era Don’t look down, de Martin Garrix, e a cada movimento meu corpo se sentia no céu.

Depois de um tempo eu já estava cansada, mas não queria sai da pista, tinha medo daquela euforia ir embora e por isso fiquei irritada quando a Clara me puxou e disse para irmos beber alguma coisa. Aproveitei para passar no banheiro e no caminho vi pessoas fumando maconha, conversando ou ficando — tinha um cara com duas garotas ao mesmo tempo, intercalando as bocas, tive vontade de vomitar.

Quando íamos entrar no sanitário feminino ouvi um grito vindo do masculino.

– O que você está fazendo? – A Clara quis saber.

– Ouvi um barulho estranho, quero saber o que é.

– Você tá maluca, Priscila? Deve ser alguém se pegando. – Ela puxou meu braço e eu me mantive firme. Estava começando a viver a vida, mas sabia diferenciar quando um grito era de prazer ou dor.

Espiei da porta, com cuidado para ninguém me ver, não ouvi nenhum barulho além de risadas e conversas, então novamente o grito, só que dessa vez foi abafado. Me enganei, era no banheiro feminino.

– Priscila, vamos sair daqui.

Minha curiosidade era maior.

– Não, quero saber o que está acontecendo!

Mesmo contra sua vontade, a Clara obedeceu.

Coloquei metade do meu corpo pra dentro e desejei nunca ter feito aquilo. Um garoto engarguelava outro na parede. Não era uma briga justa. O selvagem devia ter uns 18 anos e era forte, seus braços pareciam duas bolas de futebol, e a presa não devia ter mais do que 15 anos, e me lembrou aqueles feitos bonecos com palitos. 

Os murros no estômago do boneco se intensificaram e ele alternava entre gritos e sussurros de misericórdia. Eu não consegui me mexer, nunca tinha visto ninguém apanhar ao vivo, e tudo piorou, quando o garoto chamou pela mãe.

Ele só queria ficar vivo, era um adolescente que, provavelmente, como todos os outros, chama pela mãe quando as coisas ficam feias. Mas o selvagem não via assim. Ele continuava batendo e quando os murmúrios começaram a lhe incomodar transferiu os socos para o rosto do garoto.

Aquilo foi demais pra mim, parte do meu cérebro dizia que eu tinha que fazer alguma coisa, mas meu corpo não conseguia obedecer.

– O que tá pegando, Priscila?  

– Um homicídio. Precisamos chamar a polícia. – Minha intenção era sussurrar, mas não consegui e, então, eles nos viram.

O olhar do selvagem era profundo e sombrio. Nos avaliou e quando percebeu que tinha plateia, soltou o garoto e começou a andar em nossa direção.

Até então, não tínhamos conseguido nos mexer, mas foi sua voz grave, arrastada e ameaçadora que nos fez entender que ou corríamos ou morríamos.

– Pega elas, Fumaça. – Quem era Fumaça? Não tínhamos visto uma terceira pessoa no banheiro.

Só fizemos uma coisa: correr.

Chamávamos a atenção de todos que passavam por nós. Atônitas, as pessoas iam abrindo caminho. É claro que todos saibam que estávamos correndo de alguém, que algo tinha dado muito errado, mas ninguém se opôs para perguntar o que tinha acontecido.

De repente ali pareceu o pior lugar do mundo. A música, a festa, tudo ficou insuportável.

Corremos tão rápido que eu podia quase sentir meu coração perfurando minha pele e minha respiração pedindo socorro. Eu não fazia ideia se eles tinham vindo atrás da gente, e nem ousei olhar pra trás. Preferi acreditar que a ameaça foi só para nos causar medo. Mas eu estava enganada.

Eles nos esperavam na porta da boate, e o pânico só aumentou assim que percebi que se um alfinete caísse daria para ouvir naquele local.

– Por favor, nos deixe ir embora, juro que não vamos falar nada para ninguém. – A Clara suplicou, ao se jogar no chão. Eu fiz o mesmo.

– Você é burro??? – Seus gritos faziam parecer que seu parceiro estava na outra rua, e não do seu lado. – Ela não pode sair daqui! – O uso do pronome no singular chamou minha atenção, mas atribui o erro as emoções fervorosas do momento.

Em minha cabeça eu planejava alguma maneira de fugirmos, eu estava determinada a não morrer. Já a Clara só fazia chorar, não fique irritada com isso porque eu tinha nos metido naquela situação.  

– Toddy, as meninas só apareceram no lugar errado e na hora errada. Libera elas. – A postura cabisbaixa e o a voz trêmula mostravam o quanto o Toddy tinha influencia emocional sobre o Fumaça.

O diálogo acontecia como se não estivéssemos ali, e vi nisso nossa chance de fugir.

– Fica calado! Se você estragar tudo eu te mato também! – O Fumaça recuou, e quando eu estava sinalizando pra Clara se preparar porque íamos correr, o selvagem  voltou sua atenção pra gente.

– Vocês duas irão ficar quietinhas – enquanto ordenava, vinha andando em nossa direção com o revólver apontado – e vão fazer tudo o que eu mandar.

Nesse momento a paralisia corporal já tinha voltado, e a última coisa que minhas pernas queriam fazer era correr.

A Clara continuava chorando e aquilo o irritou tanto que ele puxou o gatilho.  Segurei na mão dela e apertei forte. Ela suava e tremia tanto quanto eu.

Quando o Toddy estava a três passos de encostar a arma em uma de nós ouvimos o disparo.

Continua…

Eu odeio Ele – Conquistei minha liberdade, e também minha sentença de morte

Priscila se liberdade do domínio dos pais. Um dia importante para uma garota que sempre sonhou em viver a vida do seu jeito, sem receber critícas de ninguém.

Capítulo 1

“-Pai, quero que o senhor me dê agora a minha parte da herança.” (Lucas 15:12)

<p class="Suspense Segredos Garota Liberdade" id="Liberdade-morte" value="<amp-fit-text layout="fixed-height" min-font-size="6" max-font-size="72" height="80">Se um dia você me perguntasse qual era o meu maior desejo, com certeza minha resposta seria: liberdade. Se um dia você me perguntasse qual era o meu maior desejo, com certeza minha resposta seria: liberdade.

<p class="Suspense Segredos Garota Liberdade" id="Liberdade-morte" value="<amp-fit-text layout="fixed-height" min-font-size="6" max-font-size="72" height="80">Hoje se você me perguntar qual o meu maior desejo, eu respondo, sem pestanejar: voltar no tempo e jogar a liberdade que eu consegui no abismo mais profundo, para muitos, o inferno.Hoje se você me perguntar qual o meu maior desejo, eu respondo, sem pestanejar: voltar no tempo e jogar a liberdade que eu consegui no abismo mais profundo, para muitos, o inferno.

Não me entenda mal, eu gostei de ser soberana no meu próprio reino, o arrependimento só veio quando as consequências de fazer minhas escolhas chegaram.  

Mas por enquanto não vamos conversar sobre isso. Aconteceram muitas coisas até eu ser prisioneira do meu caminho. Consegui várias histórias para contar, daria até para fazer um livro, só não tenho certeza se o final seria tão feliz quanto eu esperava.

Permita que eu te guie pelas páginas da minha vida.

Dizem que o aniversário de 15 anos é um marco na vida das meninas, eu nunca entendi isso, sempre ficava pensando o que acontece de tão diferente nessa idade, até eu chegar nela.

Não quis festa, contrariando todos os sonhos da minha mãe, que desde os meus 10 anos sonhava em me ver dançando falsa com meu pai. Como não sei dançar não me senti mal em frustra-la, era isso ou ser envergonhada diante de todos os meus amigos.

Meus pais não gastaram dinheiro com as ostentações de um aniversário, e isso aumentou mais ainda a sensação de independência que eu comecei a sentir à meia-noite do dia 10 de março.

Na manhã seguinte, enquanto tomávamos café da manhã, eu disse que queria ir pra escola sozinha. Era algo simples, mas foi o primeiro passo rumo a minha liberdade, e assim fui gradativamente saindo do controle dos meus pais.

Comecei a matar aula para ficar com os amigos ou para ter algum encontro. Tudo escondido, já que meus pais sempre foram pessoas conservadoras, e já implicavam naturalmente com qualquer amiga que não fosse a Clara.

Depois de um mês só faltava uma coisa para que tivesse ilusoriamente o total controle de minha vida (digo “ilusoriamente” porque é impossível uma garota de 15 anos que mora com os pais ter domínio total sobre si): deixar claro para minha família que eu não queria mais ir à igreja que eles frequentavam.

Meu pai e minha mãe são cristãos, então desde muito nova vou a reuniões desse meio. Eu gostava. Adorava as histórias que contavam de Jesus na escolinha das crianças.

Cresci ouvindo sobre como eles sofriam antes de conhecer Jesus, e de como Ele mudou suas vidas. Quando eu era mais nova essas histórias me fascinavam, mas depois eu entendi que tudo não passava de manipulação.

Meus pais queriam me controlar e achavam que só conseguiriam isso se colocassem em minha cabeça “que só está seguro quem faz a vontade de Deus” ou que “o Todo poderoso sabe o melhor para cada um de nós”.

Comecei a me questionar sobre a bondade de Deus, já que supostamente temos livre-arbítrio, mas só estamos protegidos do “mal” quando fazemos as coisas do jeito Dele.

–Pai, estou indo à uma festa com a Clara. – Eu demonstrava coragem e firmeza, mas por dentro estava morrendo de medo de ser barrada. 

Para minha surpresa, ele só perguntou onde seria e com quem eu ia. Respondi e dei as costas, não queria correr o risco de mais perguntas surgirem e eu acabar em uma festa no meu quarto.

Quando eu já estava na porta, meu pai me chamou:

–Filha, – virei com o tom de voz paternal que antecede a uma bronca – eu não vou poder te controlar a vida toda, você já pode fazer suas próprias escolhas, mas não esqueça que as consequências também serão suas.

Tive vontade de chorar. Naquele momento algo se rompeu entre nós. Meu pai estava me deixando viver, estava me tirando das suas asas e por alguns segundos tive medo de não saber voar.

Olhei para minha mãe, que por um milagre assistia a cena sem palpitar, e pela primeira vez vi a tristeza em seus olhos. Acredito que naquele momento ela percebeu que sua filha não era mais a garotinha que pedia a opinião dela até pra roupa que ia vestir. Deve ter se perguntado quando perdeu o controle sobre mim.

Continua….

Nota da autora: Todos têm o dirito de viverem a vida como desejam. Não condeno a Priscila por sua decisão, acho ela bem corajosa, por sinal. Mas não posso deixar de alertar que quando vivemos a vida sem pensar no amanhã, infelizmente não podemos ignorar as consequências, que na maioria das vezes não nos agradam.

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