Abandono

Manu era uma jovem feliz. Porém a linha entre a felicidade e a tristeza é muito fina. Tudo começou a desmoronar quando ela perdeu o amor da sua vida: Marcos. Ele foi embora sem dar explicações. As coisas estavam bem em um dia e no outro, Marcos arrumou suas malas e saiu de casa. 

Eles tinham uma filha, Juju. Ela tinha 7 anos, idade suficiente para saber que seu papai sair de casa com uma bolsa bem grande não era algo normal. Ainda assim, Juju só achou que ele iria viajar. Como era muda não podia perguntar em palavras e já que seu pai não olhava pra ela não tinha como se comunicar e tentar saber o que estava acontecendo. 

Manu tentava segurar o marido, puxava sua blusa, chorava, gritava, mas Marcos não lhe dava uma palavra. Com apenas um empurrão jogou a esposa no chão e foi embora. Não deixou explicações. 

Enquanto Manu se perdia em desespero, Juju observava. A garotinha não entendia porque sua mãe chorava tanto, ela se aproximou e colocou a mão no ombro da mãe, queria que a olhasse para poder perguntar o que estava acontecendo, mas Manu nem chegou a sentir a menina.  

Juju se afastou, teve medo da cena que via. Pela primeira vez no mundo ela se sentiu triste, mesmo sem saber que era a palavra tristeza que denominava a dor que estava em seu jovem coração. 

Já havia escurecido e Manu não saia do lugar. Continuava chorando, agora mais silenciosamente. Juju pensou em se aproximar de novo, mas continuou com medo. Aquela pessoa jogada no chão, com o rosto inchado, os cabelos bagunçados e olhos parecendo que iam saltar não era sua linda mamãe. 

Um dia, dois, três… Juju parou de contar. A mãe deixou de lhe enxergar. A vontade que Juju tinha era de fazer igual ao seu pai: colocar algumas coisas dentro de uma bolsa bem grande e sair. Quem sabe aquela dor em seu peito pararia e talvez assim a mãe lhe notaria. 

Eu odeio Ele – Descobri que a minha mãe biológica era a pessoa que eu mais odiava no mundo

Chegou a vez de Margarida encarar Priscila. Confira!

Capítulo 32

“Se o seu irmão pecar, repreenda-o e, se ele se arrepender, perdoe-lhe.” (Lucas 17:3-4)

– Filha, onde você está? Te liguei a manhã toda e você não atendeu. O que aconteceu?

– Tá tudo bem, mãe. Só vim dá uma volta com a Clara. Daqui a pouco volto pra casa.

– Você devia ter avisado. – Repreendeu. 

Meu dedo coçou em cima do botão de desligar. O que eu menos precisava naquele momento era minha mãe pegando no meu pé. Apesar de não tocar no assunto da fuga, ela “disfarçadamente” procurava saber todos os meus passos.

– Desculpa, mãe. Te aviso se for demorar. – Não criei uma discussão por causa disso. Precisava guardar minhas emoções para a próxima punhalada daquele dia.

Eu tinha que falar com minha tia. Desejei que o Fumaça estivesse ali, seria bem mais fácil. Ele ia segurar minha mão ou me abraçar e isso me daria segurança e tranquilidade, mesmo que por alguns minutos. Era o que eu precisava.

Ri diante de tamanha ironia. Quando nos conhecemos eu queria distância dele e por algumas vezes tive medo. Seu toque já me causou repugnância, mas agora era tudo o que eu queria.

– Chegamos, garota.

Paguei o táxi e a passos largos fui em direção a casa da minha tia na Zona Central de São Paulo. Eu tinha ouvido minha mãe comentar com meu pai que ela não tinha voltado pra casa da minha vó e iria ficar por perto até ter coragem de falar comigo. Pois bem, tomei a atitude primeiro. Não que eu quisesse começar algum tipo de relacionamento mãe e filha, mas porque eu precisava enfrentar meus problemas se quisesse seguir em frente.

Na realidade que não tava tão corajosa assim. Quando cheguei em frente ao portão o ar começou a me faltar. Hoje, parte de mim acredita que eu queria provar até onde aguentava. Até que ponto eu seria capaz de suportar as rejeições. Eu não tinha perdido o gosto por andar nos limites do perigo.

– Priscila, meu amor, graças Deus! – Grande foi minha surpresa quando minha tia abriu o portão e veio correndo me abraçar, como se nada tivesse acontecido.

– Oi, tia. – Eu sei que deveria ter rejeitado o abraço, mas não consegui. De repente percebi que teria sido muito mais fácil se eu tivesse optado por seguir em frente fingido que ainda éramos uma família feliz. Eu a sobrinha mimada e ela a tia legal.

– Entra. – Diferente do Wilson, ela tinha uma capacidade enorme de me encarar. Talvez se escondesse no fato de que a culpa tinha sido toda dele. Pelo menos era o que ela pensava.

– Está tudo bem? — Perguntou assim que entramos.

– Tia, não vamos fingir que eu não sei. Então, por favor, me fala, por que você fez isso comigo? – Tentei controlar meu tom de voz, ficar cara a cara com a Margarida me fez entender que minha raiva era maior por ela. Se me queria tanto por que não lutou mais por mim? Se estava disposta a enfrentar o que fosse para ficar comigo, por que não enfrentou o Wilson?

– Como você descobriu? – Ela não fingiu surpresa.

Falei a verdade e como eu havia imaginado, ela também conhecia o Ronald. A Margarida tinha feito faculdade de Administração junto com o Wilson, foi assim que eles se conheceram.

– Eu nunca gostei do Miguel. Ele sempre me deu arrepios. – Anunciou como se estivesse me contando um segredo. – Você não entende, meu amor, eu queria… – Ela parecia escolher as palavras. – Deixa pra lá. – Ao contrário do Wilson, ela preferia falar de mim, da gente.

– Queria o quê, tia? Me criar? Acho que se você quisesse realmente isso tinha dado um jeito! – Explodi.

Ela não respondeu e eu continuei.

– Se você me queria tanto, se estava tão disposta a enfrentar as consequências pra ficar comigo por que não lutou mais? – Minha voz estava carregada de mágoa.

– Eu não podia. – Ela disse chorando. – Se ele não acabasse comigo o Miguel faria.

– O Miguel? Mas o que ele tinha a ver com o caso de vocês?

Sem me encarar, ela respondeu:

– Nós namorávamos.

E então minha ficha caiu. Não foi o Wilson que pegou o Miguel com a garota que ele gostava, foi o contrário. E talvez, o Miguel quisesse acrescentar minha tia na sua lista de pessoas para se vingar.

– Sejamos sinceras, Priscila, – seu rosto estava cheio de dor – a Sônia fez um trabalho bem melhor do que eu faria.

Mais um baque.

– É tia, porque ao contrário de você ela não me abandonou.

– Priscila, por favor, não fala assim… – Suplicou. – Eu era jovem e imatura, você tem que me perdoar… – Começou a chorar novamente.

– Essa foi a primeira visita que te fiz como filha e a última. Por favor, não me procure mais.

Sem pensar duas vezes me levantei e fui em direção à porta, hesitei antes de abrir, mas mesmo o choro desesperado dela e as suplicas para que não eu fizesse isso, não foram capazes de me fazer olhar para trás antes sair.

Continua…

Eu odeio Ele – Fui conversar com meu verdadeiro pai e sai pior do que quando entrei

Saiba como foi a primeira conversa de Wilson com Priscila após todas as revelações.

Capítulo 31

“Deram-lhe a beber vinagre misturado com fel.” (Mateus 27:34)

Tanto meu pai quanto minha mãe passaram a me dá gelo. Estavam magoados com minha reação e eu me sentia culpada por isso, mas não podia evitar o que sentia. E tudo o que eu tinha era raiva.

Então percebi que enquanto não explodisse com as pessoas certas eu não conseguiria tocar minha vida adiante.

– Pode entrar, Priscila. – A julgar por seu rosto pálido e sua expressão tão assustada, imaginei que meu nome era o último que ele esperava ouvir do porteiro.

– A Clara está? – Eu já sabia a resposta. Tinha mandando uma mensagem pra ela antes de sair de casa.

– Não.

O Wilson me guiou até o sofá e eu o segui. Era estranho estar naquela casa daquela maneira tão formal. Eu e a Clara nos conhecíamos desde pequenas, então sempre tive total liberdade ali.

– Como você está? Ficamos todos preocupados.

– Eu imagino. – Respondi, no tom mais seco que consegui.

– Fizeram alguma coisa com você? Te machucaram?

– Depende.

– Como assim? O que aconteceu, Priscila? – Uma dose de pânico em sua voz era evidente, será que ele achava que eu ia mesmo acreditar naquela cena? 

– Você aconteceu! – Soltei, sem pensar duas vezes e tentando ao máximo controlar meu tom de voz. – Minha tia aconteceu!

– Não estou entendendo do que você está falando… – Mesmo com seu cinismo eu notei a expressão de desespero que se formava.

– Que tal isso: um homem está desesperado para esconder a gravidez da amante e abandona a filha. – A cada palavra que saia era como se eu o espetasse e isso me fazia bem. Ao menos eu sentia que estava por cima.

– Eu pos..s posso exp… explicar Priscila. – Gaguejou.

– Não quero explicações, só preciso saber o porquê. Por que você me abandonou? – A mágoa era evidente em minha voz e as lágrimas ameaçaram cair, mas por um milagre, ou por orgulho, me mantive firme. – Eu era só um bebê.

Ele não me encarava, seu olhar estava focado em alguma coisa a sua frente e aquilo me deixou enfurecida.

– Você não tem a dignidade de olhar pra mim.

– Eu não posso.

– Não pode ou não quer? – Acusei e consegui a atenção total dele.

– Não posso olhar por mais de 5 segundos em seus olhos porque vejo os meus, não sou capaz de ver a dor em seu rosto porque enxergo a culpa no meu e enquanto você fala, eu volto àquela maldita noite, o que me faz lembrar o quanto sou desprezível.

Aquilo doeu e uma lágrima desceu.

– Maldita não por você. – Disse, adivinhando meus pensamentos. – Mas porque eu cometi o maior erro da minha vida. Fui covarde para assumir você e nunca me perdoei por isso. – Sua voz era carregada de dor e seus olhos passavam por todos os lugares, mas não paravam nos meus. – Sua tia foi um momento de fraqueza e eu me desesperei. Mas não tinha o direito de ter feito o que fiz.

Eu não conseguia falar nada, então ele continuou.

– Quando a Margarida falou que estava grávida eu fiquei desesperado. Me perguntei como em uma única vez isso podia ter acontecido. O medo superou minha razão e fiz o que eu tinha que fazer para que a Marta não descobrisse. Você faz ideia de como isso a machucaria? Ela vive para passar uma boa imagem, uma traição a mataria, além de destruir minha própria reputação, família e negócios.

Suas palavras estavam sendo como vinagre na ferida. Todos os meus pensamentos sendo expostos em palavras. Ele realmente sentiu vergonha de mim. Meu nascimento significava sua destruição.

– Eu sei que você não tinha e não tem culpa de nada. – Nesse momento ele me olhou e eu sustentei o olhar, mesmo que isso me acabasse mais ainda e aumentasse a vontade de chorar bem ali na sua frente. – Mas eu fui egoísta e ignorei os pedidos da Margarida para não te tirar dela.

– Como?

– Apesar de ter ficado preocupada tanto quanto eu, afinal ela tinha dormido com um homem casado, a Margarida queria assumir você, dizer que não sabia quem era seu pai. Ela estava disposta a enfrentar qualquer coisa por você.

– E você não deixou… – Conclui com o ódio beirando a dor.

– Não. Obriguei ela a viajar durante toda a gestação e ter você em um lugar bem longe daqui. – Dizer aquilo parecia está sendo difícil, mas ao mesmo tempo era como se ele tirasse um peso das costas.

Aquelas revelações estavam me pegando desprevenida, eu não tinha me preparado para aquilo, somente para acusar. Saber que minha tia me quis, mesmo que por um momento, aliviou um pouco a dor, mas ao mesmo tempo aumento o ódio.

Um silêncio tomou conta da sala. Queria gritar, mas não consegui, queria chorar, mas não cedi.  

– Priscila, – ele parecia está escolhendo cada palavra – te salvar foi a maneira que encontrei de me redimir.

‘Maneira errada’, pensei.

– Como você descobriu?

– Achei a certidão no bar do Ronald.

– Aquele maldito. Nunca decidiu de qual lado ficar. – Deduzi que ele estava se referindo ao fato de o Ronald trabalhar tanto pra ele quanto para o Miguel.

Me perguntei se isso era mais importante do que ter a filha renegada bem na sua frente, mas não ia suplicar atenção.

– Por que o Miguel me queria? Não faz sentido.

– Ele sempre quis me destruir, deve ter visto em você uma oportunidade.

– Então vocês se conheciam de muito tempo?

Ele parou por alguns segundos antes de respondeu, como se tivesse lembrando de alguma coisa importante, e então disse:

– Fomos amigos de faculdade, mas uma vez estávamos em uma festa e peguei ele ficando com a garota que eu gostava. Brigamos e desde então nunca mais nos falamos. – Seu tom era de quem estava colocando pra fora uma mágoa de muitos anos. – O Miguel nunca soube perder, então ficar sem minha amizade era o mesmo que matá-lo. Não pelo fato de ser eu, mas por não ter o controle sobre algo.

Abri a boca para falar alguma coisa, mas o que mais poderia ser dito? Era óbvio que estávamos falando do passado para evitar o presente, e isso era tão horrendo e pesado quando o silêncio que existia entre nós.

Resolvi facilitar as coisas.

– Eu já vou.

Fiquei esperando a tentativa de impedimento, mas não aconteceu. Sentado ele estava e assim continuou. Não sei bem o que eu esperava daquela conversa. Quer dizer, desconfio que parte de mim queria ouvir ele suplicando por perdão e me prometendo que iria contar tudo à sua família. Porém um homem como ele, não podia colocar tudo a perder por causa de um caso que não passou de sexo e falta de prevenção.

Fui embora com mais ódio do que quando entrei.

Continua…

Eu odeio Ele – Margarida e Wilson

Margarida exige que Wilson conte onde Priscila está, mas ele se nega.

Capítulo 20

Depois de quase meia hora rodando pela cidade, Wilson finalmente parou no estacionamento de um restaurante que estava quase vazio. Cinco minutos depois de ter chegado, Margarida entrou no carro.

– Onde está nossa filha? – Ela já foi logo gritando.

– Eu não posso falar, estou tentando protegê-la.

– De quem? De você? Não precisa se preocupar, ela ficou protegida de nós dois na noite em que foi tirada a força dos meus braços. – Margarida não conseguia esconder a mágoa na voz, nem queria.

Wilson não respondeu.

– A Sônia e o Antônio não fazem ideia de onde ela está, isso não é justo, você tem que falar!

– Eu não posso. Confia em mim, a Priscila está em segurança.

– Como posso fazer isso quando você não prova que não é mais o mesmo homem covarde daquela noite?

O silêncio deixava Margarida mais nervosa.

– Onde ela está? O que você fez com minha filha?

– Fala baixo, as pessoas vão ouvir!

– Eu quero que todo mundo ouça, quero que todos saibam que você sequestrou a Priscila.

– Cala essa boca! Estou protegendo ela! O Miguel Monteiro queria sequestrar ela, ele que quer o mal da nossa filha. Você lembra dele, Margarida?

A pergunta foi desnecessária. É claro que Margarida lembrava. Assim como Wilson, ela conhecia o Miguel dos tempos de faculdade. Nessa época, o comportamento fingido e corrupto dele já se manifestava, e os mais próximos sabiam que ele era envolvido com drogas e prostituição.

– O que ele quer com ela?

– É isso que estou tentando descobrir. Por isso ela não pode voltar.

– Com quem ela está?

E então Wilson contou. O fato dele saber que Priscila estava em Goiás e na companhia de um dos garotos que trabalhava para o Miguel não acalmou Margarida. Ela não confiava nele quando se tratava da filha. Não conseguia acreditar que ele sentia alguma coisa por ela, já que se manteve imune aqueles olhinhos brilhantes quando Priscila nasceu.

Continua…

Eu odeio Ele – “Porque tanto teste, Deus?”

Ás vezes até mesmo quem tem uma fé sólida chega a se perguntar “Por quê Deus?”

Capítulo 18

– Nós precisamos fazer alguma coisa, Sônia. Minha filha está perdida por ai. – Margarida estava aos prantos.

– Sua filha? – Esbravejou a irmã. – Eu criei a Priscila! Você só teve uma bebê e depois abandonou!

– Não precisa me lembrar disso! Eu já sei que sou uma péssima pessoa!

As lágrimas da irmã mais nova comoveram Sônia.

– Desculpa, Margarida… Eu estou muito nervosa, mas não tenho o direito de falar com você desse jeito. A Priscila também é sua filha. – Sônia foi sincera no pedido. – Nós vamos encontrá-la, minha irmã. O Antônio já foi em uma emissora de um amigo dele  e pediu para divulgar fotos da nossa menina no jornal.

Aquilo não acalmou o coração da mãe biológica.

– A Priscila é esperta, Sônia. Se ela não quiser, não será encontrada.

– Mas alguém vai vê-la em algum lugar. Tenha fé, minha irmã.

Fé. Quanta ironia Sônia dá esse conselho para a irmã. Ela mesma estava lutando desesperadamente para não perder a fé na vida.

Por mais que tivesse o apoio do marido e dos amigos, era difícil acreditar que tudo acabaria bem depois de tanta coisa. Sônia estava cansada das provações. Passou a vida ensinando a filha a acreditar em Deus, mas ela já tinha se pegado questionando três vezes em apenas 2 dias se Ele tinha planejado alguma coisa boa para sua vida.

Primeiro aos 16 anos ela descobre que não pode engravidar, porém cinco anos depois consegue. Tem uma bebê doce e cheia de saúde, mas em uma noite qualquer ela praticamente ver a filha desfalecer. Apesar da tragédia, ela recebe Priscila de presente, só que para não perder o costume, o inesperado acontece.

Era como se Deus dissesse que em nenhum momento ela seria totalmente feliz.

Sônia não suportaria mais uma perda. Ainda não tinha se recuperado totalmente da primeira filha e agora a segunda…

– Confie, meu amor. – Disse Antônio na noite anterior. Na hora aquelas palavras a reconfortaram, mas agora tudo o que ela mais queria era encontrar Deus cara a cara e perguntar o porquê de tanto teste.

Continua…