Abandono

Manu era uma jovem feliz. Porém a linha entre a felicidade e a tristeza é muito fina. Tudo começou a desmoronar quando ela perdeu o amor da sua vida: Marcos. Ele foi embora sem dar explicações. As coisas estavam bem em um dia e no outro, Marcos arrumou suas malas e saiu de casa. 

Eles tinham uma filha, Juju. Ela tinha 7 anos, idade suficiente para saber que seu papai sair de casa com uma bolsa bem grande não era algo normal. Ainda assim, Juju só achou que ele iria viajar. Como era muda não podia perguntar em palavras e já que seu pai não olhava pra ela não tinha como se comunicar e tentar saber o que estava acontecendo. 

Manu tentava segurar o marido, puxava sua blusa, chorava, gritava, mas Marcos não lhe dava uma palavra. Com apenas um empurrão jogou a esposa no chão e foi embora. Não deixou explicações. 

Enquanto Manu se perdia em desespero, Juju observava. A garotinha não entendia porque sua mãe chorava tanto, ela se aproximou e colocou a mão no ombro da mãe, queria que a olhasse para poder perguntar o que estava acontecendo, mas Manu nem chegou a sentir a menina.  

Juju se afastou, teve medo da cena que via. Pela primeira vez no mundo ela se sentiu triste, mesmo sem saber que era a palavra tristeza que denominava a dor que estava em seu jovem coração. 

Já havia escurecido e Manu não saia do lugar. Continuava chorando, agora mais silenciosamente. Juju pensou em se aproximar de novo, mas continuou com medo. Aquela pessoa jogada no chão, com o rosto inchado, os cabelos bagunçados e olhos parecendo que iam saltar não era sua linda mamãe. 

Um dia, dois, três… Juju parou de contar. A mãe deixou de lhe enxergar. A vontade que Juju tinha era de fazer igual ao seu pai: colocar algumas coisas dentro de uma bolsa bem grande e sair. Quem sabe aquela dor em seu peito pararia e talvez assim a mãe lhe notaria. 

Vingança

Não era a minha primeira vez naquele bar. Mas seria a última. As lembranças estavam queimando dentro de mim como um vulcão em erupção. Respirei fundo e obriguei minhas pernas a seguirem até o balcão. Eu precisava pedir uma bebida. Não que o álcool fosse me dar coragem para o que tinha que fazer, eu só precisava que todos pensassem que eu era uma cliente como outra qualquer.

–  Eu quero o de sempre, Marcos. –  Ele não olhou pra trás, mas eu pude perceber seu choque ao ouvir minha voz pela maneira como seu corpo se empertigou.

Não obtive resposta, mas não me importei. Ele sabia que eu estava ali e isso bastava. Sentei enquanto o observava fazer meu drinque sem dirigir o olhar pra mim uma única fez. O que foi até bom, minhas mãos ainda tremiam em um ritmo sintonizado com todo o meu corpo ao ficar no mesmo ambiente que o Marcos.

–  Faz a mesma bebida de sempre, Marcos. –  Uma voz por cima do meu ombro deu uma ordem parecida com a minha e vi novamente o corpo dele ficar ereto ao ouvir aquele som.

Pelo canto do olho eu vi uma moça sentar no banco ao meu lado.

–  Engraçado, ele também não olhou pra você. –  Comentei, as palavras saindo da minha boca sem que eu percebesse.

Não obtive resposta e olhei para ver se tinha sido ouvida. Precisei segurar forte na ponta do balcão para não cair. Uma moça, quase da mesma altura que eu e com o mesmo tom moreno de pele, estava com os olhos fundos e um semblante triste e pesado. Logo, uma possibilidade se formou na minha mente.

–  Você conhece o Marcos? – Ela não me olhou, seus olhos estavam fixos em algum rótulo de bebida do outro lado do balcão. – Você está bem, moça?

Seus lábios tremiam e eu soube no mesmo instante. Ele tinha feito com ela o mesmo que fez comigo.

–  Olha, meu nome é Caroline, e o seu? – Tentei uma conversa menos direta para ver se conseguia sua atenção, mas nada. Ela parecia em choque. –  Ele fez alguma coisa com você?

– Sua bebida, Caroline. – O tom de voz áspero do Marcos fez meu estômago revirar. Senti que a moça ao meu lado se assustou mais ainda quando ele se aproximou.

–  Obrigada. – Respondi, sem quase abrir a boca. Precisei de muita força de vontade para não matá-lo ali mesmo.

Quando pensei que ele fosse se afastar, fui surpreendida.

– Eu vou acabar com vocês duas se não saírem daqui agora. O que vocês querem, desgraçadas? Querem que eu rasgue vocês? A última vez não foi suficiente? Saiam! – Ele sussurrava, mas era como se gritasse dentro de mim.

Muito devagar e com cada célula do meu corpo tremendo ao lembrar do desgraçado me estuprando, coloquei a mão dentro da bolsa e segurei a faca que trazia. Antes que eu pudesse tirar a arma ele se afastou.

–  Você nunca mais vai tocar em nenhuma mulher!

Não, não fui em quem disse isso, mas gostaria que tivesse sido. Ali, em um bar lotado, a moça ao meu lado atirou no Marcus e eu vi quanto os miolos dele explodiram para todos os lados.